Esta noite os meus pés vão estar frios

By segunda-feira, agosto 07, 2017


...assim como o meu coração. 

Sempre foste senhora do teu nariz, independente e altiva e eu sempre fui a 'lamechas de serviço' que te queria agarrar e encher de beijos. Uma patada ou duas depois, habituámo-nos a viver no meio termo. Passaram 15 anos desde que vieste aqui parar estrábica, assustada, tão pequenina e escondida atrás do sofá que ninguém conseguia encontrar-te. Cedeste à minha mão e tornámo-nos amigas. E desde aí que acompanhaste tudo. Sempre vigilante, sempre do alto das escadas onde apanhavas sol, sem te importares muito com grande coisa, sempre ali.  
Foram muitos anos de histórias que não precisaram de voz para ser contadas. Como aquelas em que cheguei de mansinho, a meio da noite, para não acordar os pais, e em que tu, censurando-me, me deixavas comprar-te com uma saqueta. Depois dormíamos em conchinha até ao meio dia. Adorava as tuas mudanças de posição durante a noite. E quantas vezes não chorei  ao teu lado (cheia de alergias) para ter a resposta que o teu ronronar me dava? Nessas vezes, tu deixavasAliás, hoje sei que me deixarias. Como deixaste, há pouco, que te pegasse nos meus braços para dares o teu último suspiro. Agora não posso amuar, como tu, quando eu ia de viagem. Porque vou continuar a saber que os meus pés vão estar frios logo à noite, e que já não tenho esses olhos grandes sempre à minha espera.



Ainda acreditei que seriam mais do que 6 meses. Mas foram 2. E na única semana em que estive fora, tu esperaste mais um dia para te despedires de mim. Sim, quando cheguei (quem vê as minhas instastories sabe da noite de ontem), não encontravas posição do tanto que querias estar enroscada. Eu sei que esperaste por mim. E hoje quando te encontrei à hora de almoço, quase sem forças e sem conseguir respirar, soube que estava na hora de te deixar ir.

Gostava que os veterinários tivessem a noção de que não vale tudo, e de que isto não é como um casamento que se quer perfeito. Aqui não há um final feliz, só um menos doloroso. É verdade: quando adoeceste agarrei-me a tudo. Fiz tudo. Confiei. Ouvi. Sermões de médicos que queriam que fizesses dieta, os mesmos que te operaram sem te fazer exames para perceber a extensão do teu cancro, quando não fazia sentido operar.




Depois, esperava que recuperasses. Sentava-me no chão ao teu lado até te ver comer; molhava o dedo para te fazer querer beber água; desfiava-te o frango quando já não comias mais nada, e dava-te bocadinhos pequeninos à boca. .E às pessoas que diziam que eras só um animal e que estava a gastar demasiado dinheiro numa coisa inevitável, só digo que gostava de ter gasto mais, de ter podido dar-te mais tempo e mais qualidade. 

Mas também gostava de ter sido melhor aconselhada e acompanhada, e de não te ter feito sofrer em vão. Sei que fiz. Gostava que te tivessem feitos os exames certos, que o teu tratamento de quimioterapia não tivesse demorado 4  semanas a chegar, por culpa de um esquecimento, e que me tivessem ajudado a encontrar uma forma de te fazer tomá-lo, quando expliquei que já não comias. E de te ter arrastado menos vezes para aqueles corredores frios naquela gateira maldita.

Eu sei que 'és só um animal'. Passaram o dia a dizer-me isso. Mas para mim foste uma companheira maior do que muitos amigos. Alguém que viu a minha vida quase toda dos pés da minha cama e que nunca me culpou ou julgou; que sempre ouviu as minhas histórias e insónias (tão barulhentas), por mais inexplicáveis que fossem. Mas acima de tudo que sempre me esperou, como hoje, pela última vez.

Don't put your eyes down
You're not to blame
I know there are stories
You can't explain
But if I should find you black and blue
And aching from crying, I'll wait with you

Grow, grow
Oh, so you know it all
Then it's gone


You Might Also Like

0 comentários

Welcome to our website !