Odisseias no Norte I

By quinta-feira, julho 30, 2015



Por muita fé que tenhamos na competência dos técnicos de Paris – eles são especialistas, eles têm critérios rigorosos, eles são uma autoridade mundial – e por muito orgulho que sintamos sempre que, do cimo da sua glorificada sapiência, decidem verter sobre as nossas coisas a sua magnânima atenção, um título, uma distinção uma menção honrosa parecem sempre coisas abstractas e distantes. Benévolas, claro, mas inertes, inócuas, invisíveis. E talvez assim permanecessem, até as sentirmos nos olhos e na pele. E foi isso que descobri este fim-de-semana, ao acordar com o Douro Vinhateiro a entrar-me pelo quarto e pelos olhos dentro, à primeira golfada de ar da manhã, na arrebatadora varanda das Casas de Campo Vila Marim. E é ver materializado o Património Mundial, assim, sem pompa nem circunstância, no simples gesto de acordar e abrir os olhos, é essa consubstanciação da UNESCO no nosso quarto que será, provavelmente, a melhor recompensa de quem escolhe este refúgio nos socalcos do Douro para se encontrar com o que de melhor a Humanidade conhece.

As Casas de Campo Vila Marim acabaram de nascer (como as obras ainda o provam), e os seus progenitores, os irmãos arquitectos Nicolau e Cândido, zelam por elas como pais que vêem finalmente à vista do mundo um filho há muito desejado. É um complexo de 17 camas, refinadamente incrustado na terra do vinho como só consegue quem aprendeu a respirar as rectas, os ângulos e os materiais e a conjuga-los com o que já estava feito por Quem mais sabe antes de nos dotar dessa capacidade. E quem acabe de chegar pode perguntar-se: o que poderá prender alguém a este espaço semeado no meio da solidão, numa terra que aparece com dificuldade no GPS e onde as paredes de terra íngreme parecem convidar a tudo menos a ficar? 



É isto, precisamente: o sentido da conquista. Da conquista sobre uma paisagem de cortar a respiração e que nos recorda a cada instante as conquistas de homens e mulheres que deste solo fizeram terra fecunda de fruto aclamado internacionalmente. A paz e o silêncio delicadamente pontilhado pelas canções dos primeiros herdeiros deste horizonte, grilos e cigarras que já há muito aqui passavam os Verões antes das febres do turismo europeu. E o amor. Amor à terra, amor ao sonho, amor a receber. A receber bem.





E amor à arte. É que não estamos apenas num convidativo destino de turismo rural. Estamos numa construção que homenageia e vive a arte. Para além das formas hirtas, deliberadamente carregadas do mesmo ferro que pinta as terras, as Casas de Campo Vila Marim foram edificadas para serem também um refúgio de artistas. Cada uma das 17 casas foi decorada por um artista plástico da região. Amigos que, para além de darem os quadros que envivecem as paredes, dão também o nome, e tornam cada quarto um espaço seu, personalizado e único. Para quem, como eu, sinta que é inevitável não se sentir mais especial por partilhar desta celebração, fique também a saber que em breve haverá mais um motivo para voltar: o Atelier, que acolherá artistas para lhes dar espaço e inspiração para continuarem a criar, está quase pronto.







Mas está longe de ser o único motivo para voltar. Também há a piscina com vista para os socalcos, os retemperadores pequenos almoços com aquele pão que ‘só aqui’, servido com doces caseiros e paz, as camas de rede, as lâmpadas de papel nas oliveiras ao entardecer e quartos novos a estrear com todo o conforto de nos sentirmos rainhas de um castelo. E há também os anfitriões, sempre disponíveis e acolhedores, e estar-se no centro do Douro, com tudo para explorar enquanto houver margens – e sabemos que as há, para a esquerda e para a direita.





Não será, à priori, o destino mais óbvio quando nos vemos a riscar os dias quentes do calendário. Mas é também isso que o torna especial. É essa odisseia, de ir explorar o país com a bússola aberta a tudo, que a Odisseias me está a proporcionar e que me impele a deixar, senão um aviso, um conselho: fujam dos lugares comuns. Fujam dos planos fechados. Fujam do que conhecem, do que é confortável, do que toda a gente faz. Arrisquem, fechem os olhos, marquem um ponto no mapa e reservem. A Odisseias ajuda. E vocês verão que a odisseia maior será a vossa.


Depois de 2 noites fabulosas no Douro, rumamos esta tarde mais para norte. A odisseia ainda só agora começou…   

Can't you hear me knockin'
On your window?


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