Sobre as horas que não passam #1

By terça-feira, junho 09, 2015

Foi uma daquelas semanas; não apenas pelo ritmo de trabalho alucinante mas, principalmente, porque a minha Mel fugiu de casa. Estava fora de Lisboa quando o meu irmão me liga a dizer: “Eu não te queria contar, mas a tua cadela fugiu.” Nem percebi bem o que ele me disse e, quando percebi, não quis perceber. Passaram-me vários flashes pela cabeça, quis ir a correr para Lisboa; mas sem carro e dependente de transportes não havia muito que eu pudesse fazer num domingo à tarde. Primeiro chorei. Sou sempre assim: Reajo a quente às coisas mas depois levanto-me e fico pedra de gelo. Reajo. Mas primeiro choro. Assim foi. Algum tempo depois, e alguns telefonemas após, percebi que à distância não ia conseguir nada. E, se calhar, estando próximo também não. Mas ali é que eu não podia ficar... O meu pai dizia-me que eu não ia adiantar nada; que era melhor esperar o pior. Mas não! A minha Mel... Sozinha, perdida, não! Tentei comprar um bilhete de comboio. Não havia, estava tudo cheio. Mas num dos últimos Intercidades lá havia um espaço para mim. E fui sem bagagens e afogueada até Lisboa. Pedi a uma amiga que me fosse buscar e, mal cheguei a casa, à meia noite meti-me no meu carro e corri as redondezas de minha casa. Fui a zonas no meu bairro que eu nem sabia que existiam. Meti-me num bairro social sozinha, fui pelo campo. E parecia ouvi-la a cada instante. Foi horrível. 

Ah, ainda não expliquei como é que ela fugiu; que é importante antes que pensem que sou uma dona desnaturada! A minha menina roeu o portão eléctrico e, até ao electricista arranjar, colocámos umas cordas… Ora para quem rói algo tão complexo como um sistema eléctrico de um portão, umas cordas são “peanurs”. Enquanto a Camila ficou calmamente no seu canto, a madame Mel foi descobrir o mundo. 

Meia-noite, uma da manhã, e cada vez mais me parecia impossível encontrá-la. Às tantas cruzei-me com um carro da polícia e mostrei-lhe uma foto. Pedi que se encontrassem algum cão na rua me ligassem, fosse a que horas fosse. E depois disso atrapalhei-me nas palavras, já de rastos, e com as lágrimas novamente a escorrerem sem controlo. Que vergonha… Eu sei que é só um cão, mas era a minha Mel. A minha princesa. Regressei a casa, depois de passar várias vezes nos mesmos sítios e de chamar por ela já com a voz meio rouca. Só conseguia imaginá-la assustada, com fome e com frio. 



Mas, felizmente, esta história teve um final feliz graças à Fernanda, à Carla e, sobretudo, ao Luís a quem deixo um agradecimento especial por ser mais do que um bombeiro e por se preocupar em ajudar, mesmo quando não está a trabalhar. Conheci o Luís quando assistiu a minha mãe num dia em que teve de ir para o hospital. Quase um ano mais tarde encontrei-o em trabalho e falámos imenso tempo mas não fiquei nem com o nome, nem com o contacto dele. Há uns meses, o Luís bateu-me no carro. Não foi nada de especial, mas fiquei com o telemóvel e com o nome e apelido. E foi essa coincidência (será mesmo?) que me fez encontrar a minha menina. Lembrei-me que o Luís era bombeiro e que podia conhecer pessoas. E procurei-o no facebook. Prontificou-se logo a ajudar e pediu-me uma fotografia. Enviei, esperei e rezei. Quando cheguei a casa, depois da busca sem resultados, estava a dar aquele filme “Os gatos não têm vertigens” e deixei-me ficar a ver, parecendo-me pior do que quando o vi no cinema, mas ainda assim conseguindo distrair-me momentaneamente. Deitei-me eram 4 da manhã. Às sete acordei em sobressalto quando vi que tinha várias chamadas não atendidas do Luís. Tinham encontrado a minha cadela. Fui ver a foto que me tinham enviado e não havia dúvidas: era ela. E tinha aparecido mesmo depois de eu ter chamado por ela, por volta da uma e meia. O Luís  tinha enviado a foto à Carla que mostrou à tia, que encontrou a Mel à porta da sua casa e tomou conta dela durante a noite. Quando a fui buscar, no segundo a seguir a ter recebido a mensagem e depois de ter combinado um encontro à pressa num largo, só não me atirou das escadas abaixo por sorte de tão feliz que estava. E eu por tê-la de volta! E as três horas de sono lançaram o repto para a semana que teve esta média por dia. Mas valeu a pena. Para não alongar este post, vou fazer outro com as coisas que devem fazer caso isto vos aconteça. E com alguns cuidados que podem ter para que não aconteça. 






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4 comentários

  1. Fico muito, mas muito feliz por tudo ter acabado bem. Não consigo imaginar a perda destes seres que são da nossa família.
    No mês passado o gato do meu namorado também fugiu. Esteve 9 dias desaparecido (preso numa casa abandonada, sem comida nem nada!). Não desistimos e acabamos por o encontrar, quase como novo, contra todas as expetativas.
    Dois dias depois entrou em coma, porque por lapso foi lhe aplicado o desparasitante proprio para cães em vez do próprio para gatos. Não imaginas o desespero.
    Mas tudo acabou bem e está aí para as curvas :D

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  2. Bom, tudo está bem quando acaba bem. E que cara laroca! :)

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  3. Sei o que é "perdermos" o nosso animal de estimação. Uma tristeza que só nós sabemos e muitas pessoas não conseguem perceber e até acham estranho.
    Quando comecei a ler o teu post pensei, que horror, como é que a Marta deve estar... e fiquei feliz porque no final tudo acabou bem e tiveste a ajuda preciosa de pessoas que mal conhecias!
    Beijinhos para as duas <3

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