Por trás das grades

By terça-feira, maio 12, 2015


É um bocadinho ao contrário do que acontece nas escolas. Aqui, em vinte ou trinta alunos, tenta-se que um reconstrua a sua vida e recomece a partir do erro. Há uns tempos, fui dar uma aula a uma prisão. A Professora Orquídea, falou-me do seu trabalho e aceitei o desafio de ensinar os reclusos a contarem uma história. Fiquei nervosa como se fosse falar para um auditório cheio de gente. O medo de dizer algo que não devesse, de ser demasiado infantil, os olhos sérios deles a observarem-me sequiosos de ouvir qualquer coisa de engraçado. Era só uma história. Sobre a liberdade. Li-lhes uma e depois escrevemos outra. Parece simples, mas eu suei por todos os poros. Depois, acho que eles gostaram. Houve um rapaz em particular que me chamou a atenção. Era tão inteligente... Como podia estar ali? Depois explicaram-me que o azar levou-o ao lugar errado, à hora errada e que as condições de vida que não teve, ou as formações que não existiram também não ajudaram. Outro, dizia: "A professora ainda vai trabalhar para mim porque eu vou ser o maior futebolista." Nós, lá do alto das nossas vidas estáveis tendemos a julgar...Claro que também há crimes hediondos para os quais não temos capacidade de compreensão, mas não nos cabe a nós avaliar. Como é a vida de um professor de uma cadeia? Fiquem com uma perspectiva de quem dá tudo o que tem e luta diariamente pelas segundas oportunidades. 

Há quantos anos é professora numa prisão e como foi esta mudança na sua vida?
Ao longo destes mais de 10 anos de serviço com componente letiva no Estabelecimento Prisional de Aveiro sinto-me cada vez mais professora. Para lá das paredes grossas, dos portões de ferro que se abrem com chaves grandes, das grades que impedem as janelas de abrir para entrar ar fresco, ou raios de sol… para lá dessa longa fronteira, estão pessoas.  Homens, que de uma ou outra forma, com maior ou menor motivação, com mais ou menos revolta, com maior ou menor esperança, esperam pela oportunidade de melhorar a sua vida. Todos querem um dia sair em liberdade e recomeçar uma vida diferente e mais feliz. E sabem que os professores, carregados de livros, papéis, computadores e outros materiais, lhes levam conhecimento, experiência, oportunidade. Mas levam também o cheiro da rua, do sol ou da chuva, o fresco do vento, a cor das flores, o canto dos passarinhos ou o barulho dos carros na cidade … o sabor da liberdade. Levam roupas coloridas que contrastam com as fardas dos guardas e com o ambiente escuro e triste. Levam sorrisos, levam tempo, levam paz.




Questiona-se muitas vezes?
Sim, no fim de cada dia penso que cada um de nós, tal como eu, se interroga pelo facto de estar “cá fora”. Eu, católica de formação, dou graças a Deus todos os dias, porque me fez nascer numa família com valores e que me foi dando, ao longo da vida, capacidade de entendimento e coragem para escolher caminhos seguros. Podia ter nascido sem pais, sem amigos, sem capacidades. Ou com pais que não soubessem cuidar de mim. Ou que soubessem e não fossem capazes pelas mais variadas razões. Podia ter tido na minha vida alguns momentos trágicos de desespero que me tivessem levado a cometer atos criminosos. Podia ter sido ou acontecido tanta coisa que me teria levado ao outro lado das paredes grossas de um qualquer estabelecimento prisional.
















Como é o Estabelecimento Prisional de Aveiro?
É uma prisão de “passagem”. A grande maioria dos reclusos está em prisão preventiva, sem saber o que lhe vai acontecer. A ansiedade é característica comum de todos. Uma ansiedade crescente à medida que se aproximam os julgamentos e que pode ser diminuída nas aulas, porque o ambiente que se vive é sempre de mais serenidade e confiança. Os reclusos que procuram a escola, são pessoas com histórias de vida diferentes, percursos escolares também diferentes. Nem sempre estão motivados para ir à escola; quase sempre, pelas mais variadas razões não tiveram experiências positivas no passado ou nunca foram, porque a vida foi demasiado cruel e o tempo da infância foi ocupado na tentativa de ganhar algum dinheiro para ajudar a família, ou porque nunca ninguém os motivou suficientemente, ou também porque as suas dificuldades nunca foram preocupação de ninguém. 

Por isso, o tempo na escola foi ocupado a assistir aos sucessos de outros e a sentimentos de incapacidade e anulação da autoestima. Agora, durante o tempo de reclusão, querem tentar uma última experiência escolar. E vêm sempre ter connosco com alguma expetativa: uns apenas esperam que a inscrição na escola possa favorecer uma saída antecipada (talvez o juiz acredite que estão a fazer um esforço pela sua própria reintegração); outros querem mais do que isso: aprender a ler e a escrever, a possibilidade de obtenção de habilitações suficientes para aquisição da carta de condução, “passar o tempo mais rápido”; acabar um nível escolar que começaram há muitos anos sem sucesso... Alguns ainda esperam ocupar o tempo de reclusão de forma útil e menos pesada. Dizem esses: “Pelo menos na escola as conversas são outras e aprende-se alguma coisa. E sempre são pessoas que se nota que nos querem ajudar. Podemos conversar com eles, dão-nos bons conselhos e não nos julgam pelo crime que cometemos.” Querem começar uma vida nova quando vierem para a rua. Querem ter mais formação (escolar e humana), mais conhecimentos, mais facilidade em conviver com os outros. Querem aprender a respeitar e a cumprir regras. Querem ter um trabalho honesto e deixar os caminhos fáceis que os levaram à cadeia. Querem até continuar a estudar “lá fora”. 

O ensino numa prisão é totalmente diferente, as expectativas também?
Muito mais do que ajudar a adquirir conhecimentos escolares. Queremos e devemos ser para cada um, a resposta que procuram. A ajuda eficaz para que consigam mesmo “mudar de vida”. Conscientes de que não conseguimos melhorar a vida de todos os nossos formandos, nem proporcionar a todos as aprendizagens que desejaríamos, temos a certeza que o nosso papel não é inútil. Assistimos à mudança. Sentimos o reconhecimento e a alegria do crescimento em valor humano.





Há muita gente que critica o nosso sistema…
Impõe-se muitas vezes a questão: Está certo? Serve para alguma coisa a reclusão? Será
verdade o que tantos dizem: que a prisão é uma forma de formar ainda mais e maiores criminosos? Privar as pessoas de dias ou anos de vida será positivo? Condenar pessoas que não tiveram oportunidade de perceber que há regras sociais que devem ser respeitadas, é correto? Não temos resposta para estas questões. É muito complicado mesmo. Eu pessoalmente acredito que para uma sociedade sem prisões, era necessário que muita coisa mudasse cá fora. Que o investimento em educação fosse muito maior, que os apoios sociais nunca falhassem. Que a sociedade fosse muito mais solidária e responsável. Mas, porque as cadeias existem é preciso que não sirvam só para castigar, aumentar a revolta e promover o crime. O tempo de reclusão, as prisões podem servir para reintegrar. Para ajudar a refletir, para formar consciências, para adquirir regras básicas de convivência e respeito pelos outros. E podem também servir, e servem, para reabilitar tanta gente que não tem nada nem ninguém na rua. Gente que ali encontra segurança, cama, comida, higiene e, sobretudo, gente que quer ajudar a contrariar a solidão da vida.

Nota: As duas últimas fotos são do Estabelecimento Prisional de Aveiro e foram retiradas dos cadernos “Desafios Nº9” publicados pelo SAME da Universidade Católica do Porto.

You Might Also Like

0 comentários

Welcome to our website !