O Magnum onde tudo começou...

By domingo, abril 27, 2014 , , , , ,

Faltavam cinco minutos para ter que sair de casa. Os pés frios como se lá fora estivessem 15 graus em vez de quase 40. Nunca tinha percebido bem essa história das borboletas no estômago, mas a verdade é que se sentia como se a parte de si que tinha encontrado quando ele lhe sorriu pela primeira vez, estivesse agora perdida algures no fundo escuro de um canto seu que não conhecia. ‘Estás parva, é só um encontro. É só uma tarde de verão.’ Sim, poderia ser. Mas não era isso que ela queria. E era saber isso mais audível que as palavras que sussurrava para si que a deixava assim, com o corpo a saltar da pele já levemente dourada, a querer sair de casa esbaforida, a querer correr pela praia, pelo espuma, pelo Verão inteiro, e içar bandeiras verdes em cada recanto da costa portuguesa. Nunca o trânsito na ponte lhe pareceu tão absurdo nem longo. Que longo inverno até às portagens, e ele nem uma mensagem, ‘se calhar não vai, se calhar fartou-se mas também não vou ser eu a escrever’. Mas até podia ter escrito, porque não teria feito diferença. Estava marcado, e como prometido, ele estava lá. Sentado nas escadas de madeira, paciente, seguro, como quem sempre a esperou, bonito, loiro, com barba de três dias mas ternura de muitos mais.

Custa a crer que no princípio ficassem assim, sem saber bem o que dizer, por quererem dizer tudo de uma vez. Até que ele o disse: ‘Queres um gelado?’ Poderá parecer banal. Mas hoje sei que não foi. Porque foi ali que começámos a ser nós. Foi a primeira vez que eu disse que ‘sim’. Foi a primeira vez que nos sentámos assim tão perto. Foi a primeira vez que ficámos os dois, confortavelmente em silêncio, a ver o mar e a imaginar a nossa vida juntos. Eu, ele e um gelado.

Eu, o Magnum de Amêndoas. Ele, o Magnum Branco. Não tínhamos que querer exactamente o mesmo, mas sabíamos que queríamos o melhor e que o queríamos juntos. Lembro-me do sabor especial que teve para mim naquele dia, e de ter achado que não poderia querer mais nada. Mais nada que aquele som crepitante em cada dentada, mais nada do que aquele perfume a chocolate nos lábios e a protetor solar no pescoço, mais nada do que aquele braço à volta do meu e do que aqueles primeiros elogios atrevidos ou do que aquele ar trapalhão que eu ainda adoro quando lhe disse que tinha um bocadinho de chocolate no nariz. 

Foi o gelado perfeito, porque materializou um sonho que eu ainda não sabia que tinha. O sonho de sentir que aquele era só o primeiro. Que mais Verões viriam e que em cada um deles, haveria um banco azul assim, onde pudéssemos ver os surfistas lá ao fundo, as crianças a arrastar um balde de poça em poça, e o conforto de saber que, em cada um daqueles pacotes metalizados, estava um Magnum e um bilhete de volta para aquela primeira tarde. O sabor do nosso primeiro beijo foi crocante e doce, cheio de amêndoas e manteiga de cacau. Naquele Verão, o meu gelado preferido tornou-se o gelado do meu sonho. E o tempo pode congelar assim, porque nada me sabe melhor.

PS: Para mim, o Magnum perfeito já existe. Era um dos da edição especial 5 Kisses, o Apaixonado, com merengue, suspiro e frutos vermelhos, que faz pequenos estalinhos na língua e se derrete divinamente a cada dentada. Mas se o sabor já é perfeito, é onde o descobrimos, e com quem, que o torna mágico.  E é por isso que o sonho de gelado se transformou, naquela tarde, no gelado do sonho. E só podia ser Magnum.

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