Deste mundo e do outro

By segunda-feira, setembro 23, 2013


O fim-de-semana deu-me exemplos de pessoas e de histórias que merecem ser contadas, de narrativas que precisei de ouvir para me darem força para o que aí vem. As coisas não acontecem mesmo por acaso. E à beira de uma semana difícil, conheci pessoas excepcionais.

A irmã Adriana mal me conhece mas dá-me logo um abraço cheio. Daqueles abraços que se recebem poucas vezes. Que parece que nos enchem de energia e de força. Mas o carinho que tem pelo ser humano vai muito além dos abraços e da simpatia. É no Alentejo, nas Galveias que comanda um lar. Vê-se que não lhe escapa nada. Ri-se dos velhinhos com boa disposição e com carinho. Ri-se como quem fala da sua família. E, na verdade, acaba por sê-lo. Tenho pena de não a ter mais perto porque em duas ou três frases adivinhou-me o pensamento e descansou-me a alma. Mais tarde percebi que não era a única a achá-la deste mundo mas também do outro. A cara redonda e as covas que faz quando sorri mostram ternura e o hábito na cabeça faz-lhe calor. Concerta-o várias vezes, enquanto nos diz que precisa de ir uns dias para fora dali: "Porque a maluqueira pega-se", diz-nos, bem-disposta! Dedica a vida àqueles velhinhos tão abandonados e cuida deles como se de crianças se tratassem. “Atenção às escadas D. Bia! Não lhe disse já que não a quero a descer as escadas.” Contaram-me que quando algum dos hóspedes está doente e se pensa que pode morrer, ela passa a noite ao lado dele, para lhe dar a mão e garantir que nada lhe falta nas últimas horas. Pergunto-me que ambições terá para si. Se o cumprir a vontade de Deus lhe chegará para se sentir plena. Gostava de às vezes também pensar menos em mim. De dar mais. Mas eu sou só deste mundo. Contudo, casos como estes não deixam de me inspirar para ser um pouco melhor todos os dias. Espero voltar a vê-la irmã! A si, e ao Padre que faz 94 anos no S. Martinho. Os joelhos não perdoam mas continua a conduzir um carrinho pequeno. Inúmeras vezes assaltado por pessoas sem escrúpulos, continua a celebrar a missa e pede desculpa por não ir na procissão “senão vocês tinham era de me levar a mim num andor”, brinca com a respiração ofegante, carregado de um esforço que faz para ali estar e que não consegue esconder. O Padre Folgado esteve anos numa paróquia do Alentejo chamada Aldeia Velha. E agora que a vida lhe começa a escapar, e que a aldeia faz jus ao nome, continua a sentir que há muito para fazer. A mim diz-me para ter juízo. Provavelmente pressentiu o meu espírito irrequieto no olhar. Mas mesmo sentindo-se fraco, sabe que tem de continuar. Parar é morrer e ele não é desses.

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