Nunca é tarde para recordar

By terça-feira, outubro 02, 2012 , , , ,




Quando o João me pediu que escrevesse sobre as minhas memórias de férias, rapidamente deixei a minha mente fugir para uma aldeia perto de Tomar. Passei férias na praia desde bebé e, embora tenha óptimas recordações, a parte menos convencional toca-me muito também. Escrevo-vos sobre as férias da escola que me recambiavam para junto dos meus avós maternos. Brincava às barbies até às tantas, via as novelas (proibidas) e os morangos com açúcar, mas isso interessa pouco. Lembro-me bem das cantorias e assobios do meu avô, de acordar e de ter uma sandes de pão caseiro com presunto à minha espera. Acredito piamente que a minha celulite vem das pizzas que amassava e compunha com a avó, ou das gemadas deliciosas de ovos caseiros.

Depois havia os dias dos passeios de bicicleta. Achava muito fashion levar as minhas mantinhas de retalhos para fazer um pic nic no meio do campo e a minha avó alinhava, arranjando-me as coisas. Havia dias, quando o meu primo andava por lá, em que dávamos grandes passeios, fazendas fora, e apanhávamos amoras selvagens. Perto do riacho, gostava de molhar os pés e de ver os peixes pequeninos escapulirem-se, no meio das pedras que a natureza assim dispôs. Ao fim do dia, com o vento a bater-nos na face, e o sol a dourar os campos de trigo e girassóis, regressávamos aos mimos familiares, livres, felizes ao som de gargalhadas e com os joelhos arranhados das quedas. Ainda parávamos no Rossio a ver as árvores dos bichos da seda, imundos, sabendo que o banho que nunca apetecia, nos esperava.


Lembro-me de ir ter com o avô à horta e de lhe levar uma laranja. Ficava ali a vê-lo arrancar a casca, sentados perto do tanque, enquanto ele me contava histórias ou me falava das plantações. Ao longe o Sr. Valentim cavava qualquer coisa e acenava-me com a boina. Perguntava quase sempre ao avô porque é que naquele tanque não podíamos fazer uma piscina e ele respondia que tinha lodo e musgo e que seria difícil, mas eu insistia. Foi uma daquelas batalhas que me fez perceber que nem sempre insistir é um bom caminho.  Depois íamos juntos ver as plantas a receberem água, os buracos, o bicho horroroso da batata, as romanzeiras carregadas de romãs. 

Eram férias de vegetais e de fruta também, já que os avós faziam apenas um lembrete, mas pareciam esquecer-se dele facilmente. Muito açúcar, muito sol e muitas brincadeiras. Também gostava de dar um salto à sociedade (grupo recreativo) - às escondidas -  para "tirar cafés". Achava uma profissão de sonho atender pessoas. Mas o meu pai negava-me isso alegando que aquele não era lugar para uma menina como eu. Acabava a noite a ler "Os Cinco", rodeada de um bom farnel. Aqueles livros davam-me sempre fome! A avó costumava ter aqueles biscoitos "lagarta" que apesar de serem grandes, ninguém dá por eles, e só nos apercebemos da sua existência quando já comemos quase todos. 


Tantas coisas que com o passar dos anos, por uma ou outra razão, deixaram de existir. Quanto mais não seja porque já nem férias da escola tenho, ou porque a avó já não se lembra da receita dos biscoitos. Guardo grandes memórias destas alturas e sabe bem escrever sobre elas. A vida é feita dos momentos felizes e poderíamos dizer que 80% dela são férias. Muitas vezes, não me lembro do que fiz ontem mas destas memórias trago o cheiro, as cores, os sons e sei que nunca os esquecerei.

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5 comentários

  1. Lindo e genialmente bem escrito! Também tive os meus saudosos momentos com o meu avô materno :)

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  2. que lindo *-*
    beijinhos
    http://chequematte.blogspot.com.br/

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  3. Lindíssimo!
    Sou uma pessoa mega nostálgica, então para mim as memórias são tudo.

    http://glamourinabottle.blogspot.pt/

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