Sem tempo para envelhecer

By quarta-feira, fevereiro 29, 2012


No domingo estivémos com o Alfredo. De expressão contida e olhar fixo, longe e frio. A vida não lho fez mais quente. A sua história pode ser contada em poucas linhas, mas muitos seriam os fios que a ligariam a tantas outras, mundo fora. Trabalhou a vida toda (“parece já ter nascido a trabalhar”, conta Paulo). Estranho que as linhas da cara não lhe marquem os 61 anos. Talvez quem não descanse não ganhe rugas. Talvez não tenha tempo para as criar. Talvez as tenha por dentro, calejadas debaixo da pele, nos sítios onde esconde as mágoas e os sonhos deixados pelo caminho. Trabalha aos domingos e feriados e a reforma não está para breve. Os primeiros trabalhos foram para “amigos” da aldeia, que apenas queriam “encher os bolsos” ao custo da exploração dos mais pobres. Daqueles que com uma sardinha no prato por família, não dispunham de um não no vocabulário. Hoje, Alfredo não melhorou muito a vida. Ao contrário da lógica de vida actual, não comprou um carro e depois uma casa, e depois um carro melhor, e depois uma casa melhor. Nunca teve sequer carro. As pernas e o espírito ríjido guiaram-no sempre. Apesar de já ter trabalhado mais do que vários de nós juntos, vive num contentor porque teve que vender a casa, para pagar as dívidas. Dívidas de nenhum vício senão o de sustentar uma mulher doente e três filhos com um atraso.  Filhos e agora um neto (sem pai localizado). Alfredo não esconde o sorriso, quando fala do seu menino.  Este vive com o resto da família numa casa na aldeia que viu o avô trabalhar de solo a solo, mas nem por isso a sorrir. A aldeia fica a 5 horas de Lisboa pela camioneta, que o António apanha, mais ou menos de mês em mês, com os trocos que vai juntando, para sustentar a prole. Desculpem a partilha triste, mas este encontro provocou-me duas sensações. Primeiro, e uma vez mais, senti-me pequenina. Simultaneamente, os meus dramas da semana pareceram-me migalhas. Depois, perguntei-me o que o faz acordar de manhã. O que o motiva a trabalhar e a ir à missa ao Domingo. Onde arranja força ou convicções para não ter depressões, para não cair na fraqueza. Talvez não tenha o tempo que nós temos para nos queixarmos. Ou para dizer que sofremos de stress. Ou para comprar medicamentos para a depressão. Deixo-vos esta história porque imprimiu uma grande pegada em mim, e para isso bastou-lhe uma hora e pouco.

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22 comentários

  1. mas que grande pegada também deixa em mim... estou também com o coração muito pequenino e bater por um misto de sentimentos que nem consigo distinguir. é nestes momentos em que vejo o quão real a realidade é...

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    1. Boa frase FME "o quão real a realidade é". Um beijinho querida!

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  2. Há pessoas maravilhosas com uma coragem a que nós nem chegamos aos calcanhares. O mundo não é justo e nós não sabemos valorizar o que temos.

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    1. sem dúvida Ju! Mas às vezes estes exemplos ajudam-nos a valorizar o que temos! beijinhos

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  3. deixou - me as lágrimas nos olhos , é magnífico termos a oportunidade de conhecer pessoas assim que nos fazem perceber que nós ao lado deles somos pequenos !

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    1. sem dúvida Alice ou pelo menos a valorizar mais as coisas que tantas vezes desdenhamos! um beijinho

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  4. Existem pessoas com histórias de luta e de vida extraordinária e eu sou sem duvida muito pequena ao lado delas. Há que as admirar, dar-lhe o louvor que merecem. Estes sim são heróis, porque não desistem, porque não se deixam ir a baixo e não perdem o sorriso.
    Um homem que não conheço mas admiro. Que me faz lembrar a história dos meus avós e que me faz pensar como estou tão presa na minha gaiola, e como me esqueço que há quem passe por muito pior.
    Obrigado por partilhares esta história.

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    1. De nada querida Katty! um grande beijinho e obrigada!

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  5. É magnífica a força de vontade e as diferentes vidas das pessoas que nos rodeiam...

    http://glamourinabottle.blogspot.com/

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    1. e nós tantas vezes nem vemos Liliana! um beijinho

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  6. Nunca conheceu outra vida e, por isso, não pensa no que podia ter tido ou não. Este senhor sim, é um herói!

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    1. Sem dúvida alguma Pequeniña! beijinhos

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  7. Que imagem que esse senhor traz! Enfim... é triste! Espero que tudo se resolva com ele. Nem sei bem o que dizer...

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    1. Alexandre, acho que este senhor não sonha que já inspirou tanta gente! um beijinho

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  8. Olá Mia, que história triste mas a mesmo tempo com alguma força.
    Como existe sempre um sorriso em alguém...é formidável.

    Gostei muito, é sempre mais triste esse lado da vida que o Sr. tem.

    Bjs
    Fica bem

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    1. Obrigada querida! é isso mesmo, o sorriso que traz tanto! beijinhos

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  9. E a forma como escreves e retratas a triste e emotiva história também deve ser valorizada. Que texto lindo, apesar de versar um tema nada bonito, nada feliz, nada divertido...

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