Cão como nós

By segunda-feira, agosto 29, 2011



A I. tem um jantar com a avó que vai para a Madeira. A A., além de ter o novo namorado, tem o jantar de despedida da M., que vai de Erasmus. O E. tem o jantar de anos do M. E eu não tenho propriamente planos. Tenho a tranquilidade da minha casa que estranhamente nem sempre me convida a entrar. Tenho a noite toda pela frente e lembrei-me de trazer a Camila, a minha cadela, para perto de mim. Trouxe-a, e, apesar de ter demorado a arranjar espaço, afinal de contas, falamos de uma Serra da Estrela que não cabe propriamente por entre os móveis com grande facilidade, estou a gostar de a ter ao meu lado. Deitei-me no sofá e ela ficou no chão. Os seus olhos doces observam os meus movimentos e um bocado depois está a tentar comer-me a caneta. Lentamente, faço-lhe uma festa com o pé e suspiramos em conjunto, enquanto ela se vira feliz para que lhe faça mais, ao mesmo tempo que tenta perceber o que lhe digo: “Minha princesinha!”. Sabe que é algo bom e descansa, feliz. 

Assim vai ser o nosso serão: um silêncio partilhado mas cúmplice. E temos a noite toda pela frente para pôr a conversa em dia. A Camila, como Manuel Alegre dizia é também uma de nós, parte da família, mesmo que por vezes seja mais discreta e a esqueçamos. Está sempre ali para nos saudar e perguntar onde vamos, quando saímos à noite, ou quando saímos mais tarde de casa. Percebe todas as nossas rotinas e não dispensa um pão pela manhã! Ladra aos estranhos e, sobretudo, à Naná que agora foi dar o seu passeio no mundo dos gatos nocturno. A Camila é um cão como nós, como Alegre escreve do seu Kurika, porque os cães atingem esta dimensão de amizade que nem nós muitas vezes conseguimos. Dão sem procurar receber, dão genuinamente e incondicionalmente e estão sempre ali de língua de fora, sem ter dias bons ou maus, prontos a receber-nos e preparados para um passeio sem perguntas difíceis, embora tantas vezes também as façam com o olhar.

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4 comentários

  1. Eu também gostei muito! Já o li duas vezes.. Beijinhos

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  2. Ternurento (e ve verdadeiro) post. Mas, mas, mas... Não serão os restantes animais capazes de relações cheias de boas reciprocidades, divertidas, sãs, se não forem torturados e mortos para nosso alimento? Não considerem esta nota despropositada, porque não o é. Viva os animais, e viva a Pegada Feminina (cujo rastro acabei de encontrar);).

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  3. Olá Tamborim! Bem-vinda a este cantinho! É verdadeiro, sim! E concordo muito com a tua nota, e não a acho despropositada, pelo contrário. Somos nós os culpados das relações intrinsecamente falsas por que nos deixamos envolver.
    Mas a mudança tem que estar e começar em nós e o apercebermo-nos disso pode simbolizar um princípio. Obrigada pela tua partilha. Beijinhos e espero que vás continuando a deixar pegadas por aqui!

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