Carta sem data e sem destinatário

By sexta-feira, julho 29, 2011 , , ,


Não gosto de coisas mais ou menos, não gosto de metades, não gosto de coisas medianas e não gosto de meios termos. Sempre fui, como dizem por aí, ou a oito ou a oitenta.

Não gosto de coisas sem sentido, médias, dúbias, tíbias. As coisas ou são ou não são e o amor não tira férias nunca. Ou se gosta ou não. Não há meios termos. Ou é ou não é. Se as pessoas não conseguem aguentar, se as pessoas preferem arejar, oxigenar, então é porque não tem de ser.

Hoje tenho um coração partido em mil pedacinhos. Desencontrados. Que não são metades, mas  que não se reconhecem uns nos outros. Hoje sei que não posso nem devo aguentar o que sei que nao consigo. Mas o que é que não consigo? Hoje não sei absolutamente nada a não ser que respiro, que as dores de cabeça me atacam com todo o seu poder, que a meia luz  me faz chorar sem encontrar consolo no escuro da janela, onde as àrvores se abanam violenta e inteiramente na dança do vento.

Estás por toda a minha casa. O que me pedes não se pede.E eu nao posso gostar tanto de alguém que me põe numa situação assim. Porquê? Só preciso de uma única resposta. E tu não ma dás e pedes metade. Eu não sou metade. Sou inteira. Posso estar despedaçada, sentir que os meus pés estão descolados, ou que os meus ombros estão arrancados, que o coração inchou, mas eu sei que tudo isso vai sarar. O corpo pelo menos vai cicatrizar, mesmo que demore o seu tempo próprio e que fique a cicatriz para me lembrar que amei totalmente.

E agora, como se esquce alguem que se ama? Como se esquece quando não se consegue perceber como se pode ser tão brutalmente atraiçoada pelos sonhos onde nos colocámos? Como se esquece o que se tem medo de esquecer? Como se esquece o que não se quer apagar?

“O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar."

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'



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5 comentários

  1. O tempo cura tudo... ou quse tudo, ou pelo menos acalma.

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  2. Quando descobrir informa-me como se faz.

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  3. Quando descobrires informa-me como se faz.

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  4. Combinado Ricardo! ;) Mas acho que cada pessoa terá a sua forma...

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