Dos companheiros de viagem

By segunda-feira, junho 20, 2011



Quem me conhece sabe que Saramago é para mim um autor especial. Daqueles que não dispenso citar num trabalho, daqueles que vão encontrar em cada prateleira da minha biblioteca privada, daqueles que marcaram a minha vida de uma forma como poucos alguma vez terão o privilégio. Saramago tem histórias que em mim fizeram história. Acho que é um incompreendido e que as pessoas se fartam de falar sem o conhecer, e sem o ler. Acham que a sua obra se resume a umas frases revoltadas com o mundo e em particular com a Igreja, mas acho que o leram pouco e muito mal. Aliás, acho que foi mais entendido fora do seu país do que nele e sinto uma enorme pena por isso. Ele também sentiu, embora nunca se tenha esquecido da sua aldeia Azinhaga, que tanto visitou, para que dela não se esquecessem. Sabem aqueles autores que escrevem e dão voz ao que sentimos? Que atingem esta dimensão de nos serem próximos sem sequer nunca nos termos cruzado?

 A sua história de vida e a forma como se guiou sempre pelas suas convicções, polémicas ou não é para mim um exemplo de perserverança. Há um ano ouvi da sua morte, enquanto conduzia e parei o carro no meio da estrada, não compreendendo muito bem porque me deu aquela tristeza, aquela vontade súbita de chorar como se da morte de um companheiro se tratasse. Saramago era comunista, eu não sou, Saramago não acreditava em Deus (embora eu ache que toda a sua luta contra Deus não passasse de uma procura de sentido e simultaneamente de uma não aceitação da falta de sentido que o não ter Deus na sua vida lhe conferia), eu acredito. No entanto, Saramago achava que as suas palavras lhe traziam sentido, gostava de contar histórias sobre os pequenos, sobre os anónimos, de achar que podia mudar o mundo com as suas palavras e não nego que quando ouvi da sua morte ocorreram-me dois pensamentos: Que nunca o tinha conhecido e simultaneamente que ía deixar de ter livros seus para ler.

Ontem tive finalmente oportunidade de ver o excelente documentário sobre a escrita do seu livro “A viagem do elefante”. Aconselho-vos e sobretudo aconselho-vos a lê-lo melhor, sem pensarem na pontuação ou não, porque José Saramago também tem livros pontuados!

Por outro lado, neste documentário vemos uma dimensão humana, um humor particular, e uma história de amor incrível, que ultrapassou barreiras e estereótipos, com uma Pilar que segundo José “tanto tardou em chegar” e que fez com que “não morresse”.


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2 comentários

  1. cheguei aqui por mero acaso, ou antes pelo gosto da escrita de Saramago, e uma tentactiva de defesa deste em outro blog, como godtei vou ficar por aqui a vasculhar.

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  2. Eu gosto mesmo muito de Saramago e irrita-me q falem sem o conhecer. Saramago não é só o memorial do convento. Saramago é toda uma obra, com altos e baixos, como todos os autores. E foi muito mal compreendido. Ai que ele falou da União Ibérica, ai de que ele era comunista. E então? Há tantos autores com tantas coisas com as quais não concordamos, mas que gostamos das obras. Respeito quem não goste dos livros, mas porque os leu, não porque se baseie em julgamentos de personalidade de meia tigela.

    Obrigada por vasculhares, campista! ;)

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