Das histórias

By terça-feira, maio 17, 2011 ,

A avó Maria tem 83 anos. Pequenina, de olhos ainda muito vivos debaixo das suas rugas, perguntava, há pouco tempo, ao médico sobre os seus “esquecimentos”. O médico referiu que, como no seu caso ela se lembrava das coisas antigas muito bem, os seus lapsos de curto prazo residiam em algo próprio da sua idade; Daquilo a que vulgarmente chamamos demência.
Assim, a avó repete muitas vezes as mesmas coisas ao longo do dia e questiona-se sobre o mesmo assunto, colocando-lhe sempre o mesmo grau de interesse. Explicamos-lhe várias vezes que basta carregar no botão vermelho e ela repete: “no botão vermelho”, carregando na vez seguinte noutro qualquer.  Num dos dias que passou cá em casa, resolveu lembrar-se de nós pequeninos. Se vissem a alegria nos seus olhos, ao contar as histórias que nós já sabemos completar… Ainda assim, aprendo sempre coisas novas, porque como boa contadora de histórias que é, a avó acrescenta sempre alguns pormenores que lhe parecem interessantes. Gosto de a ouvir falar da sua infância e de ver a ternura com que relata o meu avô.
Enquanto alguns pensam: “outra vez a história do papagaio”, ou, menos timidamente, dizem “já me contou”, eu resolvi ouvi-la com atenção e fazer-lhe perguntas. Sei que não é correcto, e que, no fundo, estou a enganá-la ao fingir que não sei o que afinal já sei de cor. Mas essas histórias são a vida da minha avó, sem elas, resta-lhe pouco. E se vissem os seus olhos ainda mais vivos ao contar-se tão bem, percebiam do que falo!
As histórias trazem sonhos, e os sonhos fazem-nos agarrar a realidade. Quem poderíamos ser, senão a fé daquilo em que acreditamos? Quem seríamos sem as nossas crenças? But then you can’t be faithful until you know why you should, diz Scotty, um dos irmãos da série Brothers and Sisters.
Sem história não se sai do lugar: Corre-se no nada, do nada para o nada. E envelhece-se na mesma. E morre-se mesmo (Pedrosa, Inês, “Em busca da gratidão perdida”, p.70, Crónica Feminina, Dom Quixote, Junho de 2005).

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2 comentários

  1. Mia, deve ser tão difícil para vós... Acho lindo que finjas que não te lembras das histórias. Ao menos a tua Avózinha se sente bem ao contá-las...

    Muita força para vós. Do fundo do coração.

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  2. Obrigada B., mas pelo que li, há mesmo situações muito piores e fizeste-me ver isso! Obrigada.

    Beijinhos

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