Shhh. It’s oh so quiet!

By segunda-feira, abril 18, 2011 , , , ,





E se, em vez de apenas ir, dissesse que não ía, mas fosse na mesma?

Foi mais ou menos isso que, na semana passada, me passou pela cabeça. Surpreender, esse verbo que tanto gosto de pensar em usar, mas que na maioria das vezes não sai do recanto mais profundo do meu cérebro. Combinei com a mãe dele e lá inventei uma ida para Santa Cruz com amigos. Que nem um mentiroso profissional, imaginei que estava mesmo a ir. Vizualizei o cenário, ouvi as conversas. E o mais importante? Ele acreditou.

O Plano:

Apanhar um comboio de Lisboa para o Porto e depois outro do Porto para o Douro. Aparecer de surpresa.

Como todos os planos infalíveis e à prova de bala, há sempre detalhes imprevisíveis que fogem a sete pés do programado. Devo, no entanto, confessar que a adrenalina de um plano furado é ainda melhor!

O que realmente aconteceu:

Saí a correr para a estação, de saltos altos, esquecendo-me que nem ando bem com eles, com a mala atrás, com um calor insuportável e com apenas dez minutos para comprar o bilhete e apanhar o comboio. Por muito que tenha corrido (e há que frisar que a minha ausência  prolongada do ginásio não ajudou), que efectivamente corri, não foi suficiente! Esperava-me uma fila gigante na bilheteira.  Comprei bilhete para o comboio seguinte, ciente e advertida pelo senhor , da possibilidade de, uma vez em dia de greve, poder ser confrontada com uma noite ao relento na estação do Porto.
Esperei uma hora pelo alfapendular, sentada na minha mala cor-de-rosa, transpirada e com os pés inchados. Encontrava-me tão absorvida nos meus pensamentos, que nem dei pelo comboio chegar. Por uma unha negra não o perdi também.

1º momento de risco:

Toca o telefone. (“Vai parecer que estou num carro, não atender é pior”, pensei). Claro que, no preciso momento em que atendo a chamada, o comboio começou a travar e consequentemente a “chiar”. Desligo rapidamente e  ligo à I. para que ela me confirme que parecia mesmo um carro. Atende-me ele. Confundi-me com a pressa. Desligo ainda mais rápido.

1ª paragem:

Chego finalmente ao Porto. Ligo-lhe da rua e conto-lhe como interrompi o jantar para o fazer (adorei a cara dos polícias ao ouvirem dizer que estava a sair do restaurante). Provoco-o dizendo que nessa mesma noite ía receber beijinhos meus, mas faço-o parecendo que teria de os imaginar. Digo-lhe que queria ter um helicóptero e teletransportar-me para perto dele, e mais umas tantas pirosadas que só a distância me faz dizer.

2º momento de risco:

De repente, um telefonema da mãe dele faz-me perceber que ele não está na quinta. “Coincidência das coincidências, o A.vai apanhar o mesmo comboio que a Mia porque perdeu o anterior”. Não consegui vê-lo com tanto entusiasmo, mas rapidamente percebi que estava em desvantagem:  Uma perímetro desconhecido, onde rapidamente podia esbarrar contra o alvo. Resolvi apressar-me (após um retoque de maquilhagem imprescindível) e precipitei-me para o comboio. Contudo, este ainda não tinha chegado e tive de procurar abrigo, já que não teria metade do impacto se fosse vista ali, assim. Procurei atrás dos postes e encontrei uma barraca onde escondi a mala, que nem de um extraterrestre consigo esconder pela sua cor poderosa! Aliás, escondi-me a mim também, pelo menos até um policia vir investigar o que fazia eu ali dentro.

Nova mensagem para A. “Já estás de viagem?”, como se não soubesse que o comboio nem ali estava sequer. Assim consegui saber o seu paradeiro e prever os seus movimentos. Sun Tzu chamar-lhe-ia “Arte da Guerra”. A presa deve ser apanhada desprevenida, pois o efeito surpresa é avassalador.

Espreitei e vi o caminho livre. Corri para o recém-chegado comboio. Nem dois minutos passados A. liga declarando estar no comboio. Controlei as batidas aceleradas e esperei dez minutos até o comboio partir. Depois mais cinco. Pum, Pum, Pum na minha cabeça ecoavam as batidas cada vez mais fortes e rápidas. Num ápice, levantei-me e fui procurá-lo.

O Encontro:

Deixei a minha mala com um senhora. Sorte que por estas bandas não me acharam com ar de terrorista! Passadas duas carruagens, avistei-o, a olhar para a janela com um ar sério. Caminhei devagar, até que no reflexo do espelho ele me descobriu. Olhou-me de frente incrédulo, e nada disse. Abraçou-me, riu-se e só depois confessou a felicidade, afirmando estar piamente convencido de que me encontrava bem longe.

Compensou a corrida e as dores nos pés, compensa sempre surpreender quem gostamos.

E se, em vez de voltar, dissesse que voltava, mas ficasse?

Fiquei por aqui com as surpresas porque hoje é segunda e tive mesmo de voltar.



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5 comentários

  1. Até nas surpresas acontecem imprevistos, mas no fundo correu tudo bem nesse inesperado encontro :) Felicidades!!!

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  2. Adorei ler.. Escreves bem e parece que uma pessoa consegue ver passo a passo!
    Beijinho*
    http://cinderellin.blogspot.com/

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  3. Correu tudo mais do que bem. Ainda estou em crer que é a imprevisibilidade que torna a nossa vida tão única e especial, Icas!

    Obrigada Cinderellin, espero que vás continuando a gostar de ler as minhas aventuras!

    Beijinhos

    Mia

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  4. Awwwww :)
    Com tantos riscos até nos leitoras nos assustamos ;)
    Mas ainda bem que correu tudo bem

    http://desabafosdabonequinha.blogspot.com/

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  5. Correu sim, bonequinha. Vale a pena arriscar e ser criativa, quase sempre! Obrigada :)

    Mia

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