As horas

By sábado, março 19, 2011 , ,




Era fácil servir-me de clichés e de frases bonitas para fazer um texto sobre ti. Podia começar por dizer que te admiro muito e que gosto muito de ti, que como duas premissas verdadeiras, que são, podia ficar por aí.

Mas tu sempre foste tudo menos a norma. Sempre foste imprevisível, apaixonado, dedicado, meio louco e único e, por isso, não vou usar tal método. Para ti e sobre ti não posso traçar padrões. Foges à norma como foges aos paradigmas. Estás longe de ser um pai perfeito, mas és o pai “possível”, como costumas dizer.

Devo-te uma homenagem, no dia de hoje, não porque não tenha passado a vida a escrever-te bilhetinhos, mas porque acho que ultimamente tenho andado demasiado ocupada a pensar nos meus problemas. Tenho-me esquecido que as demonstrações de amor, que o amar alguém, como dizia um padre que agora não me recordo o nome, é tudo aquilo que pode, alguma vez, dar sentido à vida. Passamos a vida a ver meios em todo o lado, a estar por hábito, e não quero que seja assim. Nós nunca fomos uma família típica, disseste-me uma vez. E, a forma que hoje arranjei para demonstrar o quanto te valorizo, foi escrever-te um pequeno texto, simples, directo e sem floreados.

Quem nos vê, diz que somos como cão e gato, mas ambos sabemos que é o facto de sermos tão parecidos que nos leva a discutir 90% do tempo. Sei que muitas vezes só te percebo mais tarde, e sei também que te admiro muito mais do que aquilo que alguma vez te direi, ou do que terás percepção. Sei como temo a tua opinião mais do que a de qualquer outra pessoa, e como fico nervosa quando me ouves espantado. 

Provavelmente toda a visão que sei ter, vem do exemplo que me passaste, e do espírito crítico e exigente que tiveste comigo. Sei que és um homem bom, ao contrário do “durão” que às vezes tentas parecer e, foste tu que me ensinaste, e disso não tenhas dúvidas, a levantar a cabeça, a dar a volta por cima. Posso dizer-te que és o orientador de tese da minha vida e que, não é por acaso que a tua opinião vale sempre tanto, e me afecta como a de mais ninguém. Foste tu que me fizeste olhar as pessoas nos olhos, e perceber a importância da humildade, perceber que cada pessoa é única e que diferentes estratégias implicam diferentes meios e uma adaptação que às vezes não é nada fácil.

Passaste-me os nervos, todo aquele stress que me faz sentir viva (às vezes demasiado!) Acima de tudo incutiste-me valores e fizeste-me seguir devotamente o valor da família. Cá para mim, foi a forma que arranjaste de me fazer estar dentro da redoma onde sonhaste colocar-nos.

Tenho os teus genes dramáticos e sei bem que 37,2ºC de febre é totalmente diferente de 37,1ºC! Gosto de tudo à minha maneira, e se é a minha maneira não é à maneira deles. Entendes, certo? Li num jornal um provérbio indonésio, que diz que quem nasceu para ser lagartixa não pode ser jacaré. Nós somos jacarés, pai. E reconheço que pouca gente nos compreende muitas vezes. 

Fazes parte das minhas memórias mais antigas, pai. E sei que vais sempre estar presente nas minhas caminhadas futuras, mesmo que, tantas e tantas vezes, ainda vás torcendo o nariz.

Não és um hábito. Nunca foste. Mas há tradições que não dispensas. Assim, hoje à noite, como sempre fazes, ainda me vais perguntar a que horas chego, na esperança que eu te responda: "à meia noite".



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2 comentários

  1. já não me lembro de um texto que me fizesse sentir tão emocionado como este. é bom que não se digam coisas destas acerca de nós, depois de já não as podermos ouvir.
    obrigado!
    Sabes aquela sensação de que tudo valeu a pena...
    beijos pai!

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