Super poderes

By terça-feira, fevereiro 15, 2011 , ,


Quando víamos os desenhos animados, ao sábado de manhã, bem antes de todos acordarem imaginávamos que éramos Power Rangers, e que tínhamos super poderes. Podíamos ser um Doraemon ou um Pokemon e ter o nosso próprio poder. Que bom voar, ter o poder do fogo, mas bom, bom, era ser invisível. Ver e não ser visto. Que dom extraordinário!

Todos os dias passamos por pessoas “invisíveis”, pessoas que timidamente se escondem e temem ser vistas. Pessoas que percorrem as ruas com tanta mágoa às costas e que apenas procuram um sorriso, uma palavra, ou que as vejam. Pessoas que ninguém  vê. Pessoas tristes, desalentadas, no autocarro, em toda a parte. Pessoas que já perderam tudo e que não são exigentes nem pedem esmola. Costumo ver velhinhos nos centros comerciais à procura de movimento, de famílias alegres jovens, que já foram as suas. Nos bancos de jardim, a olhar o vazio, a ver os jovens que os desprezam a passar.

Hoje passei por si, as pernas arqueadas, inchadas, um casaco preto a denunciar a alma, o cabelo branco, agarrada às paredes, com uma moleta. Passei eu e mais cinco. Passei e não consegui continuar. Voltei atrás e timidamente perguntei: “Precisa de ajuda? Quer que lhe leve o saco?” E a resposta foi “E pode levar-me também a mim?”, com um grande sorriso. Não sei se naquela situação seria capaz de sorrir, mas depois de ouvir as histórias do senhor do talho, que tinha fechado porque estava muito doente e da nova loja do chinês, pus-me a pensar: Será que são eles que são invisíveis?

Andamos ocupados demais a pensar em nós, nos nossos objectivos, nas nossas carreiras, em nós, em nós, em nós! Saramago falava de cegueira, eu concordo: andamos cegos connosco mesmos, mas os super-poderes só valem nos filmes, e as pessoas que para nós são hoje invisíveis merecem que as vejamos. 

"Este mundo tem coisas, porque entretanto, e antes, e depois, passam todos os dias ao nosso lado outros navegadores solitários, doentes, desafortunados, sem casa nem trabalho, sem alegria, nem esperança. E ninguém atravessa a rua para lhes dizer: Estás perdido amigo? Estás perdido."

(Saramago “Este mundo tem coisas”, Deste mundo e do Outro, 1992)




Post Scriptum

Há dias uma senhora foi encontrada morta no seu apartamento. Não deram pela sua falta durante 9 anos. 


“Esta senhora vivia nos arredores de Lisboa, e não num canto qualquer do Portugal perdido. Teve dois azares. Vivia numa sociedade que já não olha para o lado a não ser para invejar o carro novo do vizinho ou o rabiosque da colega de trabalho e apanhou pela frente dois senhores que de agentes da GNR só têm a farda, impedindo-a pelo menos de ser tratada após falecer com a dignidade que qualquer um merece. Morreu só e assim permaneceu





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